quinta-feira, 15 de maio de 2008

Vestido.


Felícia recebeu um convite para um baile que aconteceria dali à 4 meses. Antecipação que se justificava porque era um baile a fantasia e todos teriam tempo para inspirar-se.
Ela queria que sua fantasia representasse algo mais abstrato e que pudesse traduzir no simbólico. Escolheu o amor.
Tinha que escolher a cor e foi muito difícil. Nada rosa ou vermelho porque não lhe caia bem. Como em algumas culturas o preto é uma cor boa por ser a união de todas as outras, foi a escolhida. Amor preto? Ela adorava tudo que era diferente.
Gostava de roupas sedutoras, evocativas mas nunca demonstrativas. Tinha as costas à mostra e ficaria na altura dos joelhos, rodado, algo anos 60. Um sapato caro e um colar.
Não pode fazer provas detalhistas. Confiou nas mãos que confeccionaram sua idéia e que usavam as medidas que ela tinha repassado. Era só ler Felícia com atenção.
Durante o baile seu vestido foi se desfigurando. Talvez porque não suportava a “competição” com as outras fantasias.
A Fantasia da Mentira deixou seus pontos frouxos não lhe deixando segura.
A Fantasia do Desrespeito rasgou seu decote lhe expondo demais.
A Fantasia da Promessa rachou seus saltos lhe fazendo caminhar com medo de cair.
Quando Felícia se deu conta estava quase nua e ainda com um pouco do que restava de sua fé no amor, saiu discretamente do baile e foi embora.
Quando se viu nua reparou em si.
Pensou que sua fantasia precisava de reforços, porque enfim era linda.
Mas por enquanto aquele amor não lhe vestia bem.

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