sábado, 19 de janeiro de 2008

Mala Leve.


Sexta-feira, final de tarde, calor de março. Estudantes universitários se encaminham para mais uma viagem rumo à casa dos pais. Sua mala está leve (se carrega o básico para dois dias porque ela anda introspectiva), ela está com tempo e revolve atipicamente ir de ônibus circular. Avoada, percebe uns vultos vindo em sua direção, mas não presta atenção. Quando eles chegam mais perto: PÁRA! Quem será? O cara era tudo e tinha uma bunda linda. Três amigos, conversando, rindo, provavelmente universitários. Não olha muito porque certo que um cara desses nunca olharia para ela. Pegam o mesmo ônibus e de lá ela só olha discretamente com um ar de “não percebo vocês aqui”.
Segunda-feira, meio dia, espera suas amigas no seu restaurante habitual. Quem entra? O cara da b**** linda! “Eu nunca vi ele aqui, mas como?”. A partir daí ela observava que ele sempre lia o jornal depois do almoço, sempre tinha muitas companhias femininas, usava calças cargo e tinha um corte de cabelo “uma coisa argentina se ser” adorável! Depois de um tempo, ela já conhecia alguns amigos e o curso que ele fazia. Brincava com as amigas que ele era o pai de seus filhos.
Sexta-feira, noite, frio de junho. Balada, gloss, amigas, cerveja. Na época tocava um batidão brega, mas que todo mundo curtia (“vem aqui com seu tigrão”). Remexe pra cá, remexa pra lá, quem está na festa? Sempre cercado por suas lindas amigas?


- Olha lá, o pai dos meus filhos! Aii! Ele tá me olhando!
- Deixa de ser boba, olha para ele (que figura a melhor amiga).
- mas eu tenho namorado.
- não cai pedaço.
- ai, ele tá me chamando!
- vai lá.
- não consigo...
- tu não vai casar com o cara!
- fui!


Não tinha namorado, nem amigas, nem mais ninguém naquela festa: só ela e o pai de seus filhos e que beijo! Era como na música Nós da Cássia Eller: “Eu sei que você disse por aí, que não tava muito bem seu novo amor, você tava mais querendo era me ver passar por ai”.
Naquela época celular não mandava mensagem, não tinha MSN, nem Orkut e poucos estudantes tinham telefone em casa, ela tinha que esperar a próxima festa, expectativa que não tem preço.. Com uma culpa que lhe comia os rins, ela chega em casa as 5 da manhã se olha no espelho e pensa: traí meu namorado. O apartamento sempre agradecia seus ataques de culpa: faxina de madrugada. Sabe aquela máxima: “trair e coçar é só começar”, pois bem, depois que ficaram da segunda vez a história não foi outra, ela terminou o namoro e pode viver o que achava que não aconteceria com ela – o cara estava ali e pleno, pelo menos até cada amanhecer. Ela descobriu que naquele dia quando ela deu seu lugar para uma idosa, ele percebeu. Que ele percebia quando ela cortava o cabelo mais curto, quando engordava, quando triste, que ele tinha as gírias mais engraçadas e próprias que ouvira, que era carente, delicado e tinha bom gosto.

Acabaram as férias de julho e ela voltou para o namorado. Ele não gostou. Tempos sem se ver. Um outro reencontro. Voltaram a ficar de novo. Aqui era só o desejo de estar junto, não interessava se ela com alguém e ele com outras. Ele era um fanfarrão. Ele nunca mais confiou nela. Não importava mais. Era pele e sempre foi. O programa menos autista que fizeram juntos foi ir numa locadora pegar um filme que nunca viram o final. Era pele.


Depois de 6 anos daquela sexta-feira foi o primeiro ano em que eles não ficaram. Ele diz que na idade que estão não se pode ser mais sozinho e ela precisa se abrir. Ela diz que ele foi um marco na vida afetiva dela. Talvez agora eles consigam ser amigos. Distantes. Sem pele. Ele amadureceu e talvez case antes, porque a mala dela ainda esta leve.

3 Quem leu e pitaqueou:

Jéssica disse...

Este blog está largado?? Qdo vais postar algo novo?? Queria colocar teu blog como link no meu, mas não achei, tu lembras como faz??
Bjs

FABIH CALDAS disse...

Será que foi só o filme que ficou sem final?
Estou de volta.. saudades dos teus textos!! beijo grande

FABIH CALDAS disse...

voltaaaaaaa... voltaaaaaaa!!!
cadÊ tu? beijos