Espírito masculino e alma feminina
Quem tem a alma mais complexa, o homem ou a mulher? Na verdade, a pergunta é simplista. Primeiro seria preciso discutir se existe mesmo, nesse sentido, essa tal de alma. Depois, se há mesmo diferença, além da anatômica, entre feminino e masculino, sem frescura. Houve um tempo em que falar da alma feminina era assinar atestado de machismo. Agora, pode ser de feminismo.
Nietzche e Schopenhauer desdenhavam a inteligência feminina. Pelo jeito, nunca fizeram muita pesquisa de campo ou no mato. Os pensadores nem sempre vão além da teoria. Aristóteles achava que as mulheres tinham menos dentes e menos costelas que os homens. Bem se vê que os gregos eram mais chegados num garotinho. Nietzche foi um apaixonado por Salomé, uma intelectual, tipo Saia Justa, que o fez rastejar, mas não lhe deu aquilo que ele mais queria. O negativo virou positivo e fala-se hoje em sensibilidade feminina como um atributo natural e positivo. Estamos na metrossexualidade.
Será mesmo que há diferença espiritual entre o masculino e o feminino? O espírito do José Dirceu certamente é equivalente à alma da senadora Heloísa Helena. Ambos parecem só ter dimensão política. Costuma-se dizer que a alma feminina é cheia de curvas e que o espírito masculino é uma grande reta. Mas pode ser que o contrário também seja válido, Alguns exemplos disso para análise no lugar em que são feitos os mais fecundos exames científicos da alma humana, a mesa de bar: quem é mais volúvel, o homem ou a mulher? Não vale responder tucanamente que isso depende de cada pessoa. Estamos falando justamente das inevitáveis generalizações. Adoramos um falso universal.
Normalmente, acusa-se a mulher de ser mais volúvel, afinal, segundo os homens, elas dizem sim quando querem dizer não e mudam de opinião, a cada cinco minutos, sobre coisas insignificantes, como se devem ou não estourar o limite do cartão de crédito, embora tenham convicções robustas sobre cabelos e combinações de cores. Os homens, claro, têm certezas profundas sobre futebol, esquemas táticos, marcas de cerveja e mulheres. No mais, mudam de opinião a cada cinco minutos sobre coisas irrelevantes como a fidelidade masculina, as promessas de campanha política, caixa 2 e outras ninharias da esfera pública. Vê-se que o masculino e feminino são realmente muioto diferentes.
Mas também se diz que mulher quando ama, é para valer. Entrega-se totalmente. Mesmo que seja para u canalha. Ou principalmente. Lambe o chão. Algo que nenhum homem racional pode entender. Afinal, são raros os casos de homens dominados por salafrárias, algo que, conforme a racionalidade masculina, só acontece em novela. Diz-se ainda mais, que mulher, quando deixa de amar, não hesita um segundo: detona o infeliz sem pestanejar. Ninguérm mais cruel e objetiva que uma mulher desapaixonada. A execução do condenado é sumária. Mulher não mandar recado: dispensa olho no olho. PT saudações. O cadáver já sai embalado para o enterro. E não te volta para a alma penada.
Já os homens, considerados menos volúveis, não podem ver rabo de saia que já vão atrás. Qualquer sorriso, cruzada de perna, saia mais curta, enfim, a lá vão eles dispostos a sacrificar compromissos, juras, promessas e tudo mais. Na hora da separação, enrolam, mentem, confundem-se, perdem a coragem e atolam-se. A mulher é volúvel em relação ao que não tem muita importância e nada volúvel quanto ao essencial, o amor, embora não transija sexualmente. Os homens, ao contrário, são volúveis no que diz respeito ao sexo, um item, como todo mundo sabe, de menor importância na escala das relações interpessoais.
Resumo da ópera: quem é mais racional? Quem é mais coerente? Quem é mais objetivo? Quem é quem?
No trabalho, diz-se que as mulheres são mais organizadas e detalhistas, mas também mais competitivas e sedentas de poder? Na boa, tem homem que treme de medo de mulher na chefia. Os milhares de anos de dominação masculina não parecem legitimar essa hipótese. Ou será que o poder masculino atual aprendeu a ser femininamente mais dissimulado e sinuoso?
O poder é masculino; a potência, estratégia subterrânea dos dominados, é feminina. Estou cada vez mais convencido de que o espírito masculino é meio gay, Já a alma feminina me parece totalmente andrógina.
Autor: Juremir Machado da Silva – Correio do povo